RAPARIGAS
O que veio primeiro, a Mulher ou a Tragédia?
Publicações pertinentes de natureza religiosa providenciam uma resposta clara, mas o que é certo é que qualquer tragédia sem uma mulher terá, quanto muito, metade da beleza.
Porque as mulheres sempre foram o mais recompensador objecto de projecção: a casta procurando protecção, a bruxa malvada, a amante desinibida, a ruiva selvagem, a mãe da nação, a loira burra, a espia apaixonante, a nobre santa, a todo-poderosa deusa.
É impossível fazer a escolha entre o destino, o trabalho do amor, a plenitude do poder, ou a gravidez. Será que a busca de mulheres genuinamente livres jamais passou de uma ilusão? E será isso razão suficiente para abandonarmos essa busca?

ESTAÇÕES
Haverá algo mais neutro que estações, algo mais democrático que paragens de eléctrico ou algo mais desapaixonado que abrigos de autocarro? Algo mais seguro que partidas e mais consequente que chegadas? Algo mais evidente que estar em trânsito e algo mais estruturado que transferes? Haverá algo mais intencional do que esperar?

BOYS DON'T CRY
Mesmo que isto seja sobre três tipos-símbolo, não haja dúvidas de que se trata com efeito de um projecto baseado no género:Vicente em Lisboa, Casanova em Itália e Schiller na Alemanha: com o primeiro brincaram corvos, outro teve incontáveis aventuras e o terceiro ainda hoje vê incontáveis prémios serem atribuídos em seu nome. Mas não será já altura de todos eles serem libertados de pré-juízos e desvalorizados pela história?

PLAY! MOBILE III (CÍRCULOS DE VICENTE)
Três círculos de brinquedos de criança fundem-se numa forma circular e tridimensional, em relação homogénea com a Ermida. Cada um dos círculos é feito de diferentes objectos/materiais, o que nos convida a aproximarmo-nos da superfície da instalação.
Três vídeo-projecções rotativas no centro do espaço e dos círculos usam os brinquedos como seus écrans, criando sombras em constante movimento. Quando os espectadores se interpõem entre os círculos e as projecções, são encadeados pela luz e transformados eles próprios em écrans.
Ainda que a instalação, enquanto superfície, possa sugerir conforto, o interior das projecções invoca controvérsia: soldados de brinquedo sincronizados? Agentes islâmicas adormecidas? Fascistas japoneses? Passadeiras sexistas? A linguagem escrita como instrumento de dominação?
Cada um dos círculos de brinquedo representa um protagonista: Vicente, Casanova, Schiller. A sua essência representada por cada uma das projecções vídeo: Deus, amor, política. Os círculos estão fixos, mas os vídeos, por seu turno, mudam a cada loop que se repete.
A música atravessa as diversas eras: textos de Prudentius (Passio Sancti Vencenti Martyris), Casanova (A História da minha Vida) e Schiller (O Anel de Polícrates) tornam-se audíveis de quando em vez).
Na inauguração, três performers interagem com a música, os textos e os vídeos numa atmosfera de fluxo e de rotação de ideias, posições, personalidades e biografias.